Este vídeo foi desenvolvido durante minha experiência no grupo de pesquisa Fotopoética da UFRJ e está inserido no projeto de pesquisa Potenciais poéticos do fotográfico na criação imagética do prof. Carlos Murad. O trabalho foi apresentado na XXX Jornada Giulio Massarani de Iniciação Científica, Artística e Cultural da UFRJ.
Ficha técnica:
Ano: 2008
Duração: 07:11 min
Performance: Carlos Zanoni
Música: k-half noise (Múm)
Filmagem, direção, iluminação e edição: Rafael Nobre
Orientação: Prof. Carlos Murad (UFRJ)
Do Projeto
Este trabalho iniciou-se com uma pesquisa imagética da obra do artista plástico Gerhard Richter. Particularmente em pinturas nas quais a fotografia é utilizada como indutor do seu processo criador.
“Quando pinto uma fotografia, isso faz parte do processo de trabalho e nunca deve ser entendido como um sinal - caracterizado, nesse sentido, pela observação - de que, em vez da realidade imediata, eu proponho uma reprodução, o mundo em segunda mão”. richter
Nessa intenção de representar o já representado ele nos coloca diante do “mistério da realidade”. Cria um choque entre as realidades fotográfica e pictórica. Num primeiro momento as duas imagens aparentam ser exatamente iguais, mas como sua constituição se da por meio de linguagens distintas algo se perde e também se cria. Pode-se observar em alguns quadros interferências que não estavam na fotografia, mas também efeitos característicos desta última, como o desfoque e a coloração preto e branco.
“Interessam-me apenas os planos, passagens e sucessões de tons cinzas, os espaços do quadro, entrelaçamentos e articulações.” Richter
Richter está focado nas aparências, Ele exalta e transfigura a fotografia como uma segunda natureza. Seu olhar está sobre a superfície pictórica, suprimindo o julgamento do conteúdo das imagens. Semelhante ao mecanismo da máquina fotográfica que não reconhece os objetos apenas os vê. Desta maneira, o artista expõe o vazio, o sem sentido, através da superficialidade da imagem. Partindo destes questionamentos, vislumbrou-se a criação de um vídeo experimental.
Apresenta-se como argumento a questão do duplo num desdobramento do conhecimento e consciência de si mesmo, o eu consciente e o eu inconsciente. Inicialmente, utilizou-se como metodologia a análise das imagens de Richter numa abordagem baseada na “repercussão” e no “devaneio poético” propostos por Bachelard.
“As ressonâncias dispersam-se nos diferentes planos da nossa vida no mundo; a repercussão convida-nos a um aprofundamento da nossa própria existência. Na ressonância ouvimos o poema; na repercussão o falamos, ele é nosso.” Bachelard
Esta análise se iniciou com a escolha dos quadros Stag, Confrontation 1 e 2 e ig. Nas duas primeiras imagens há uma iminência de movimento, um limiar temporal próximo de um flash que ao percebermos já se apagou. Essa captura do instante no qual o passado e futuro parecem indissociáveis remete-nos ao conceito de “acontecimento” de Deleuze e ao “instante-já’ de Clarice Lispector no livro Água Viva. Em oposição, as duas últimas imagens apresentam uma paralisia, um estranhamento diante de algo, mas também a iminência de um acontecimento.
“estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais.” Clarice Lispector
Após a vivência com essas imagens, foi realizado um texto poético, cuja escrita se aproxima de um processo de “devaneio poético”. Após uma revisitação a esses escritos verificou-se fortes elementos que serviram de leitmotiv para a criação do vídeo.
...O inusitado diante de seus olhos escorregadios de movimentos precisos agora vêem. Sim sou eu. Boca seca e dedos trêmulos de angústia. Ele está cruelmente diante de si. O que dizer? O que fazer?. Fica difícil de respirar, a umidade atinge o intolerável. Assim, esta experiência visual é um convite a vivermos a intimidade do presente e ao autoconhecimento. Pois às vezes chega o momento em que encarar a si mesmo se torna inevitável. Rafael Nobre
“A jornada é o próprio destino”.
Dan Eldon
Rafael Nobre
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